Tulipas

O LUGAR DAS LIMPEZAS DE PRIMAVERA EM NÓS

Ao longo da vida vamos juntando roupa, várias são as vezes em que olhamos para o armário e pensamos que temos que lhe fazer uma limpeza. Aquela camisa que não usamos há anos, a calça que já está apertada, o casaco que saiu de moda. Mas fica sempre a ideia de que um dia, um dia, aquela peça vai voltar a brilhar como nos tempos áureos!

Com os nossos hábitos acontece o mesmo. Olhamos para eles com a esperança que nos voltem a servir, temos as recordações de quando deram certo e a elas junta-se a ilusão e o desejo de que voltem a resultar. Mas os elásticos estragados não recuperam ao som da esperança. Do mesmo modo as nossas atitudes muito repetidas, muito desgastadas, não se tornam actuais e boas apenas porque esperamos que assim seja ou porque um dia já o foram. Custa, mas também no armário dos pensamentos e das atitudes é preciso fazer uma limpeza, rever as que nos servem, as que nos deixam num lugar mais saudável, mais feliz quando olhamos para o espelho que reflecte a vida e deitar fora as que não nos desfavorecem, nos prejudicam.

Tal como com a roupa, temos mais capacidade de perceber o que nos serve melhor ou pior do que nos damos crédito. Sabemos que aquela calça hoje em dia aperta, e aquela camisa faz foles onde não devia, aquela camisola já está descosida e aquele sapato nunca foi confortável. Somos capazes de aceder dentro de nós a toda esta informação, tal como sabemos que quando repetidamente reagimos da mesma forma a situações da nossa vida nos faz reviver vezes e vezes sem conta o mesmo resultado de sofrimento.

Então porque não deitamos fora as roupas velhas, ou não mudamos as atitudes repetidas? Às vezes é difícil perceber sozinhos porque insistimos… Muitas vezes tendemos a querer conseguir vestir a calça de há anos, com medo de ir à loja e encarar que a idade nos fez subir no tamanho, ou por reparar através da nova roupa que agora há uma cicatriz na pele que antes não existia… Encarar um espelho actualizado nem sempre é fácil, exige a adaptação de perceber que no meio das perdas certamente houve ganhos. Nas atitudes, no nosso modo de reagir perante a vida, passa-se o mesmo, actualizar é ter que olhar para esse espelho, assumir realidades, responsabilidades e ser capaz de o fazer passando por algumas perdas para agarrar os ganhos.

A nossa necessidade de estabilidade faz-nos fugir à mudança. Mas quando o guarda-roupa já tem mais roupa que não usamos do que a que nos favorece começamos a nossa auto-estima fica empobrecida também. Chega então a fase da renovação, a Primavera, onde o medo de encarar o armário começa a ser menor do que o de continuar a ver-se em roupa velha. Este é o lugar das limpezas de primavera em nós.

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